Em Cena para sempre
Abrem-se as cortinas de tempo, de luzes, sons e silêncios que preenchem nossos palcos nesses 32 anos. Mais um ano, mais um setembro e assim como a natureza tem seu ciclo de cores, a cidade fl oresce no Porto Alegre em Cena. Sempre é tempo de reverenciar os monstros sagrados que por aqui plantaram seus talentos e colheram os sorrisos de plateia em plateia.
Em 32 anos sobram histórias para contar, e muitas para relembrar, como a estética surpreendente de La Fura dels Baus, da emoção arrebatadora de Fernanda Montenegro e as trajetórias distintas, mas convergentes dos Zés que partiram, Zé Celso e Zé da Terreira. Também precisamos falar das chegadas nas horas em que os palcos foram inundados e setembro teve de virar novembro, num cortejo permanente de talentos locais.
A cidade e o Em Cena já nasceram íntimos e se conhecem muito bem desde o primeiro encontro. Como uma relação interminável de abrir e fechar cortinas e de passeios cenografados pelas ruas da capital, todos olham para Porto Alegre e reconhecem a potência das artes cênicas dos nossos tempos. Se vestimos máscaras, são os rituais, se nos fi gurinamos, é para descobrir o outro em nossos próprios gestos. Fazer teatro é ver e se mostrar, como o Porto Alegre em Cena bem o faz nesses 32 anos bem vividos.
Viva a arte, viva a vida, viva uma Porto Alegre permanentemente em Cena.
Liliana Cardoso
Secretária Municipal da Cultura
Não temos tempo de Temer a Morte
Ano passado, 2024, fizemos o Porto Alegre Em Cena sob o signo da urgência. O Rio Grande estava submerso - rios transbordantes, enchentes devastadoras – nossos rios invadindo ruas e espaços culturais, não poupando nada nem ninguém. Os grupos artísticos locais em profundo desalento assistiam teatros alagados e sedes destruídas. Um cenário distópico e assustador.
Nossa decisão de, apesar de tudo, fazer o festival foi tomada nesse horizonte caótico. Mas, olhando agora, deu tudo certo: foi emocionante, num contexto de destruição, ter uma programação voltada exclusivamente aos espetáculos gaúchos. Decidimos, também, manter o convite a jornalistas e programadores nacionais para acompanharem o festival. Conseguimos, com o aval solidário dos curadores convidados, levar alguns espetáculos para fora do Estado, e é importante salientar que a seleção das peças escolhidas para viajar foi decisão exclusiva dos curadores convidados.
2025, apesar das chuvas e do frio intermitente, será nossa edição de retomada. O Em Cena voltará à condição de festival internacional. Com todo o risco econômico que implica essa decisão, e dentro dos limites orçamentários do evento. A ênfase é trazer à cidade espetáculos que demonstrem potência e provocação, êxtase e reflexão. O objetivo é valorizar importantes espetáculos brasileiros, ainda inéditos nos palcos gaúchos, misturando trajetórias de artistas e grupos diversos, nomes consagrados ou emergentes, com a paixão teatral como elo comum entre todos.
Tenho visto montagens teatrais que me deixam animado a persistir e ousar. Tanto como diretor teatral quanto como curador de festival, a meta prioritária é surpreender o público. A beleza cênica, as palavras tingidas por nossas emoções e necessidades. O teatro brasileiro se reinventa, novas gerações procuram espaço e inserção e, para o festival, não importa o tamanho da produção, o reconhecimento midiático dos participantes, a longevidade ou a juventude dos artistas convidados. Como sempre, o festival será o fiador de sua programação. Cada espetáculo selecionado tem um apelo e uma história de valor teatral, a merecer atenção e presença. Quem vê a grade de programação impressa não imagina o trabalhão que dá chegar até ela.
As montagens gaúchas selecionadas seguirão esse mesmo critério, o da excelência local, espetáculos capazes de mobilizar o público a acompanhar o que andamos fazendo e criando. Num tempo em que escasseiam as tradicionais temporadas de sala, um tempo marcado por calendários que parecem privilegiar prioritariamente quantidade, a responsabilidade de Adriana Jorgge (representante do DAD/ UFRGS), Angela Spiazzi, Igor Ramos e Rodrigo Marquez (representante do SATED), curadores e responsáveis pela seleção local, é imensa. Assim como o olhar curatorial de Fernando Zugno e Gabriela Munhoz para nossas oficinas e palestras, pois, assim como os espetáculos, a parte formativa do Em Cena merece toda a atenção. Da classe artística e do público em geral.
Quero registrar o prazer gigantesco de repartir a construção da edição 2025 com Letícia Vieira, Cláudia D´Mutti e Maria Bastos, amigas de longa data, talentosas e competentes. Recrutada por Letícia e Cláudia, a equipe do festival vai crescendo vertiginosamente a cada dia. Impossível registrar individualmente cada um, mas estou seguro da excelência de todos. E, por fim, a presença dos parceiros e patrocinadores, além da Secretaria Municipal de Cultura, que assina a realização do Porto Alegre em Cena desde a sua primeira edição.
O festival é da cidade. Que possamos entregar ao público um Porto Alegre em Cena que renove a confiança na força potente e diversa do Teatro! É o que mais desejo.
Luciano Alabarse
Coordenador Geral